Inada San

 

Inada San no torno. Foto: Munir Bucair Filho 2024

    Há tempos já que quero escrever sobre Inada San, mas o últimos meses não foram fáceis por aqui. Primeiro gostaria de enfatizar a honra que foi poder ter trabalhado ao lado de meu pai. E não só isso, de ter ensinado a ele esse ofício que foi o seu último.

    Para quem não sabe, seu nome era Jaime Inada. A história do Inada San na cerâmica começou em 2017, quando ele quis ficar com meu antigo torno. No início era só uma curiosidade, ele queria saber como se conseguiria fazer algo ali. Eu mostrei os primeiros passos, ele foi para casa e no mesmo dia começou sua aventura.

Xícaras Inada San 2020. Foto Munir Bucair Filho. Produção: Ana Spengler

    Nessa época meu pai era massoterapeuta, depois de ter sido tantas outras coisas na vida. Isso sempre admirei nele, esse dom de recomeçar sempre que fosse preciso. Ter várias profissões, se mudar para qualquer lugar onde houvesse alguma oportunidade de fazer a vida. E por todos os lugares onde ele passava, sempre tinha muitos amigos, pessoas que cuidavam dele e outras que ele acabava cuidando. Sempre haveria de ter uma senhorinha que gostava de cozinhar para ele.

    Da simples curiosidade nasceu uma linha toda da Entorno, de copos, xícaras, cumbuquinhas, potes e o que mais sua criatividade o levasse. Ele gostava de inventar peças novas e desenhava e modelava e sempre que trazia as peças para queimar tinha algo novo.

A peça final e o rascunho

    Quando começamos a vender, as peças foram um sucesso, todo mundo amava e entendia que cada peça era extremamente única. Ele via vídeos e conversava com minha avó sobre como os japoneses gostavam dessas peças que tinham pequenas histórias a mais, um amassadinhos que foi feito sem querer mas que por fim deu um charme na peça, a marca dos dedos no vidrado, a peça que colou no forno e qualquer outra qualidade que pudesse diferenciar uma peça da outra.

Peças criadas e modeladas por Inada San. 

    Fora da cerâmica, considero que ele sempre foi um excelente pai. Foi para todo canto onde foi preciso para dar o melhor que podia para nossa família. Mas mais do que meu pai, por muitos anos fomos muito amigos. Ele me contava de quando tinha uma namorada nova, de quando se apaixonou pela sua segunda esposa, de quando ele quis muito adotar uma criança (o que acabou não acontecendo). Ele era também um ótimo companheiro de viagem. Amava praia, comida boa, música e dirigir na estrada.

Além de fazer peças, Inada San também cozinhou em dois eventos da Entorno. Junto com sua esposa, Sandra, fez karê rice, eventos que foram sucesso.    

    Aqui não falarei sobre o fim. Porque para mim sempre haverá um pouquinho de Inada San no ateliê. Eu sempre poderei contar sobre como ensinei meu pai a fazer cerâmica e o tanto que ele me ajudou e me apoiou.

    Sinto uma saudade imensa.

Gostaria de ter escrito tanta coisa. Talvez em outro momento.

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